Sabe aquela história de querer uma vida que não é a sua? Por mais simplista que sejamos, admitamos: a gente quer sempre mais, não importa o quê. Eu, por exemplo, estou constantemente querendo ser o que eu não sou. Mudar a minha vida. Ou, pelo menos, parte dela: ser mais rica, mais bonita, mais bem sucedida, menos tímida, mais corajosa.
O problema em conseguir isso tudo não é um e sim vários. A começar pela inconveniência, passando pela dificuldade e chegando no aspecto de que não é cabível mudar de personalidade ou de estilo de vida a todo momento. Em condições normais, ninguém vira rico da noite para o dia nem é perfeccionista hoje, amanhã não é mais, depois é de novo. Resumo da ópera: não é muito possível ficar mudando de vida assim, a torto e a direito.
Pois bem. Diante disso, fica mais do que evidente a força motriz que faz games de relacionamento virtual como o Second Life se tornarem o que se tornaram. A mecânica é simples: temos nosso trabalho que ou bem ou mal nos sustenta mas que “não é lá essas coisas”, nossos homens que são legais mas que não são príncipes encantados e, é claro, um computador devidamente a postos para nos oferecer uma vida dos sonhos. Ah, e que é para ser vivida depois do expediente. Eu não tenho um avatar, nunca joguei Second Life na minha vida, mas isso me parece atraente. É claro que é. Eu também quero enriquecer como a professora da cidade pacata na China que ganhou seu primeiro milhão vendendo terrenos a preços inflacionários no Second Life. Eu também quero comprar as roupas que eu nunca vou conseguir comprar na vida real. Os jogos de realidade virtual – ou insanidade virtual, como canta Jamiroquai - trazem para a gente uma espécie de “segunda chance” (qualquer semelhança com o nome do jogo é mera coincidência): tentar ser virtualmente o que não somos realmente.
Para os 8 milhões de usuários registrados no Second Life, cada dia se dividiu em dois: um deles compreende o momento em que eles acordam, vão trabalhar e voltam para casa. O outro é o tempo decorrente dessa rotina, que eles passam em frente ao computador, assumindo outra personalidade, convivendo com outras pessoas, comprando outras coisas, comendo em outros lugares.
Eles vão viver a vida que escolherem. No Second Life, não há revolta, não há imprevistos, não há surpresas como as que existem na realidade. Se você quiser um casal de gêmeos, você pode engravidar – com o tamanho de barriga que quiser comprar – sob encomenda! Inclusive com a cor de pele pré-determinada. Até ontem - e eu me lembro muito bem disso - escolher superpovoar o mundo com gente branca era sinal de racismo, segregação. Hoje é uma evolução natural. Inevitável.
Mais do que uma fuga, uma comodidade, e mais do que uma comodidade, um, dois, três, vinte prazeres. A vida virtual é bem mais fácil e bem mais excitante do que a realidade. Você pode matar, transar, falar e ainda continuar o mesmo. Você pode mudar sua vida e permanecer com a mesma. Você pode experimentar ser ladrão e ser mocinho, ser gordo e ser magro, ser homem e ser mulher. Tudo ao mesmo tempo. A diferença está em sentar-se ou não na frente do computador.
vanessap.
ah, uma nota: mudamos de página no blog! já temos um arquivo. obrigada, pessoal.
terça-feira, 17 de julho de 2007
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4 comentários:
Coloca no jornal ... vai ser sucesso!
fazer uma análise pseudo-intelectualista-antropológica em um jornal econômico-financeiro! impossível haha. mas bem que eu queria ter esse poder. acho que vou ali jogar second life e já volto.
Tapa na cara do leitor!!
excelente van! insanidade virtual!!
falou o que estava na cabeça de muita gente!
Van,
meu avatar adora seus posts!
http://www.getafirstlife.com/
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