Na quinta-feira, 3 de Janeiro, os primeiros raios de luz começaram a entrar no quarto 11, de porta azul. De leve, dava pra ver algumas partículas minúsculas de poeira que brincavam de desafiar a gravidade numa dança graciosa. Um espetáculo singular, pena que não havia ninguém lá que pudesse assistí-lo. O único presente no lugar estava deitado, inconsciente, desde a noite em que o céu fora palco de um outro espetáculo, este sim, escancaradamente iluminado pelas mais diversas cores e formas, estrelas e desejos, risos e promessas amarelas, verdes, vermelhas... Esta última foi a cor mágica que pintou os punhos, escorrendo pelos braços e espalhando-se pelo branco lençol daquele que, agora nesta cama de hospital, morria lentamente sem se dar conta do tempo que continuava ao seu redor.
Era um quarto simples. Uma cama típica de hospital, daquelas que dobram e redobram quando roda a manivela tentando confortar a quem passa por momentos difíceis. Ao lado, umas poucas máquinas velhas lutavam contra a idade e contra a morte. Na parede, uma janela quase totalmente fechada salvo uma pequena fresta inferior por onde a pouca luz se empenhava por entrar timidamente. Em frente a cama uma poltrona vazia.
Nada se ouvia, apenas um silêncio escuro e úmido. Vez ou outra a heroína metálica, brava companheira, dava uns gritos como que se dissesse "acorda! você já perdeu três dias do ano que começou!"... O triste aparelho monologava em vão.
As enfermeiras e os médicos sempre passavam na porta mas nunca queriam entrar, quando o faziam se sentiam estranhos, era como se entrassem num quadro, nem o vento se movia alí dentro... Visitas? Ninguém apareceu até hoje... O 11 era um oásis que em meio ao calor castigante evaporava lentamente. Nem o céu se dava ao trabalho de chorar algumas lágrimas.
No domingo o aparelho se calou. Seus intermitentes gritos de ajuda não foram suficientes para segurar aquela alma que nunca tivera uma árvore que lhe desse flores, frutos ou uma sombra para descansar.
ph
segunda-feira, 23 de julho de 2007
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5 comentários:
Senti a gravidade, vi o quarto e ouvi o barulho.
"...A má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas e, estar entre vírgulas é aposto. E eu aposto o oposto que vou cativar a todos sendo apenas um sujeito simples..." (TM)
Mas, será mesmo que é necessário esse ambiente todo do quarto 11 para perdemos a idéia do tempo que passa? Qualquer 2a feira chuvosa, passada 8 horas em frente a um computador tem essa capacidade...Mas ainda prefiro acordar para o dia pensando que cada um é especial.
Beijos,
Mari
pi.
pi.
pi.
pi.
pi.
pi.
pi.
pi.
pi.pi.pi.pi.pi.pi.pi.pi.pi.
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii.
virei fã!
estou um pouco angustiada. mas acho que de um jeito bom.
de um jeito que mostra como eu gosto do que tenho. da minha vida e das árvores que me dão flores, frutos e sombra.
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